Nasci no dia 18 de agosto de 1899 e faleci no dia 23 de novembro de 2009, consegui viver 110 anos alegres, felizes, divertidos, algumas vezes tristes mas sempre encarei com grande entusiasmo e levado como aprendizagem.
Minha cidade é Carçasnamão, quando nasci não havia hospital, nem médico, quem fazia o parto era Dona Maria vizinha de casa, no seu currículo já havia feito 253 partos em toda a cidade e nas cidades da redondeza. Dona Maria também era conhecida pelos seu dotes de curandeira, cozinheira, costureira, lavadeira, ama de leite, cuidava de crianças, fazia batismo, era professora da cidade, tinha uma venda de salgados na feira que acontecia todos os sábados de manhã em Carçasnamão.
Após uma semana de nascimento minha mãe Dona Gertrudes fez o meu batismo, ministrado por nada mais, nada menos que a Dona Maria. Fui batizado com o nome de Tobias da Rocha Silva, uma homenagem ao meu avô Tobão. Tobias, este nome me deu várias lembranças boas, com ele veio o apelido quando criança Tobinha, na adolescência Toba, Dona Maria sempre me chamou de Tobinha, ela se sentia como minha avó, porque ela quem fez meu parto, me batizou, foi minha professora, eu comprava sempre seus pastéis deliciosos, ela tinha um carinho especial por mim. Hoje todos me chamam de Seu Toba, aonde eu ia me perguntavam:
“Tudo bom Seu Toba?”
"Como vai Seu Toba?
"Como vai Seu Toba?
“Tudo sim.” Sempre respondia com a maior simpatia possível.
Também faziam comentários sobre minha pessoa:
“Nossa, o Seu Toba já tem 110 anos e aguenta firme essa vida difícil.”
Minha vida foi cheia de saúde e muito saudável, desde criança minha mãe sempre falou:
“Não fume, não beba cachaça e não use tóxico.”
Naquela época muita gente já estragava sua saúde. Sempre joguei meu futebol três vezes por semana, fora o sexo que até os 80 anos era no mínimo quatro vezes por dia. Após os 80 a idade chegou eu transava no mínimo uma vez no dia, quando minha velha não dava conta recorria para minha mão mesmo.
Em toda minha curta vida avisei a todos os meus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, que quando eu morresse exigi um velório alegre, feliz, cheio de alegria e contagiante, não ia querer aquelas cenas fúnebres aonde todos ficam chorando e sem graça em volta do caixão, porque sempre quis que minha morte fosse um espelho de mim comediante, engraçado e feliz.
Ainda quando era jovem fiz um plano funerário, no contrato exigi uma cláusula contratual. Os funcionários da funerária ficaram impressionados com a minha exigência, mas não falaram nada sobre a cláusula. Falei pra eles ironicamente:
“Se não cumprirem o contrato irei vir puxar o pé de cada um.”
“Essa cláusula é fácil de conseguir Seu Toba, não se preocupe.” Me responderam com muito ânimo.
No dia 23 de novembro, de 2009, eu Tobias da Rocha Silva conhecido como Seu Toba, assistia um filme de comédia com o grande ator Mazzaropi, o filme que estava assistindo tem o título, “O Xerife”, onde o Mazzaropi tem uma espingarda torta e é cheio de coragem. Conforme foi passando o filme me senti cansado um pouco sonolento, bateu um desânimo, uma fraqueza, pensei comigo mesmo:
“Vou tirar um cochilo quando acordar estarei bem melhor.”
Mas esse foi meu último filme, último cochilo, última suspirada, porque não ia acordar mais. Eu morava com minha neta muito carinhosa se parecia muito com a avó, sempre me dava toda a atenção possível, foi ela quem me encontrou em casa, nem percebeu minha morte, imaginou:
“O vovô está dormindo não vou incomodá-lo.”
O tempo foi passando e nada de acordar, minha neta se dirigiu a mim me balançou, mas eu não respondia, ela me chamou:
“Vovô, vovô, vovô acorda.”
“Vovô, levanta.” Ela gritou tentando me animar, mas já era tarde.
Eu estava deitado de barriga pra cima, com os braços soltos ao lado do meu corpo, vestia uma calça social e uma camisa branca, no meu rosto estava estampado um sorriso tímido, que não poderia faltar nem na hora do meu sono eterno.
Minha neta ficou aos prantos não conseguia aceitar, mas alguma coisa aconteceu eu via minha neta chorando e meu corpo na cama, cheguei perto entendi a tristeza dela e falei:
“Não chore filha, o vovô quer que você fique feliz, lembra da nossa conversa?”
Isso foi o suficiente, não sei como foi possível mas ela parou de chorar, se lembrou de como eu era uma pessoa sempre animada.
Minha neta foi quem organizou meu velório, ligou para os familiares e amigos. Foi na funerária leu a cláusula que exigi, ficou assustada mas não quis dizer nada, também a multa que sugeri, caso não fosse cumprido o contrato era de R$20000,00 preço salgado tudo para ser cumprido o contrato.
Toda a cidade de Carçasnamão estava no meu velório, prefeito, vereadores, professores, médicos, jagunços, coletores, mendigos, advogados, secretárias, fisiculturistas, atletas, anônimos, crianças, todas as pessoas, era tanta gente que meu corpo foi velado no estádio de futebol da cidade, devido o contrato da funerária o meu caixão era todo colorido fui trazido num carro de palhaços, uma caravan cheia de luzes e bugigangas que todo carro de palhaço tem, todos ficaram sabendo da minha chegada porque a cada cem metros o carro dava um estouro dando pra escutar a uns três quilômetros de distância, a cidade ficou espantada, quem trouxe meu caixão foram os palhaços do circo da alegria, um quarteto que já fazia palhaçadas a cinco gerações.
O ar de tristeza logo foi assumido pelo espanto, ninguém estava entendendo nada.
“Nossa, será que eu vim parar no lugar errado?” Falou a minha vizinha sem entender o que estava acontecendo.
“Não, é aqui mesmo o velório do Seu Toba.” Disse mané o carpinteiro da cidade.
“Só podia ser coisa do Seu Toba, nem no seu velório abandonou o seu bom humor.” Seu João muito meu amigo exclamou.
Foi dado continuidade ao velório, de hora em hora havia um espetáculo circense, começou com os próprios palhaços, depois o mágico, logo em seguida o contador de anedotas, o engolidor de facas, domador de leões, malabarista, equilibrista, shows de dança e apresentações diversas.
A funerária me arrumou do jeito que eu pedi, um terno verde claro, camiseta florida para combinar com as margaridas que cobriam o meu corpo e não podia faltar o sorriso estampado no meu rosto.
Dez horas da manhã todos já tinham dado as suas últimas condolências, fomos para o enterro. Quem conduziu a carreata foi a caravan cheia de luzes, no cemitério quem carregou o caixão foram os palhaços. Em um certo momento após todos entrarem no cemitério um palhaço tropeçou, o outro tapou os olhos, um deles foi amarrar seu tênis e quando menos se esperava o último a segurar o caixão atendeu o celular. Até chegar na cova que eu seria enterrado havia uma ladeira e foi por ali que meu corpo saiu rolando, a palhaçada foi correndo atrás de mim, mas não estavam alcançando, até que um dos palhaços tropeçou e saiu rolando também quando ele alcançou meu corpo, o mágico já estava no local, ele usou um de seus truques e me fez voltar ao caixão do jeito que eu estava antes de sair rolando ladeira abaixo.
Em vez de marcha fúnebre como música de despedida na hora do meu enterro de novo os palhaços entraram em cena e cantaram:
“O Seu Toba, não faz mal a ninguém.”
“O Seu Toba, é muito feliz também.”
“O Seu Toba, é alegre e animado.”
“O Seu Toba, uma vez ficou cagado.”
“O Seu Toba, sempre quis a alegria.”
“O Seu Toba dizia, quando eu partir que que você ria, há, há, há, há! ”
Hoje estou aqui no céu e estou muito contente, porque tudo aconteceu foi como eu sempre quis, um velório em que todos se divertiram e até hoje é lembrado. Aqui no céu conto como foi o meu funeral, o retorno das pessoas é impressionante acham incrível, muita gente queria morrer de novo só pra ter um velório igual ao meu.
Na minha lápide está escrito assim.
“Obrigado Seu Toba por proporcionar o dia mais feliz da história de Carçasnamão, carinhosamente o prefeito”
Toda vez que eu me lembro das palavras do prefeito me emociono venho as lágrimas, pode ter certeza, as lágrimas são de muita alegria.
GUEL
27/10/2010

o Muel muito bom seu toba..
ResponderExcluirsuyahsas